Por que analisar por grupo
No agro, é comum que operações de crédito envolvam mais de uma pessoa ou empresa: produtores que plantam em conjunto, movimentações entre CPF e CNPJ da mesma família, ou empresas ligadas por sócios em comum. Quando isso acontece, avaliar cada CPF ou CNPJ isoladamente pode esconder o risco real da operação.
É para isso que existe a proposta por grupo econômico: uma forma de analisar o crédito considerando todas as pessoas e empresas com vínculo relevante entre si, e não apenas quem está solicitando o crédito diretamente. Essa abordagem é essencial porque, no setor agro, é comum produtores:
- Realizarem movimentações no CPF e CNPJ.
- Plantarem de forma conjunta, entre várias pessoas.
- Realizarem movimentações no CPF de parentes ou avalistas.
Ao considerar o grupo econômico como um todo, sua instituição ganha:
- Visão consolidada da exposição: o risco de crédito passa a refletir todo o grupo, não só um CPF ou CNPJ isolado.
- Mapeamento de dependências financeiras: fica mais claro como as empresas e pessoas do grupo se sustentam mutuamente, e como um problema em uma delas pode afetar as demais.
O resultado é uma gestão de risco mais robusta e menos suscetível a lacunas na análise.
Quando um grupo pode ter proposta
Algumas regras simples definem a elegibilidade:
- O grupo precisa ter pelo menos 2 membros.
- O grupo precisa existir antes da criação da proposta (as análises de crédito individuais podem ser feitas depois).
- Assim como nas propostas individuais, cada grupo pode ter apenas uma proposta aberta por ano-safra. Isso não impede, porém, que um membro do grupo tenha uma proposta individual aberta ao mesmo tempo, a checagem é feita pela entidade (o grupo), não pelas pessoas que o compõem.
- A matriz de produção é única para todo o grupo.
Perfis de composição
Cada membro do grupo é classificado como Pessoa física ou Pessoa jurídica. A forma de consolidar esse score em um resultado único para o grupo, muda de acordo com a composição:
| Composição | Exemplos | Como o score do grupo é calculado |
|---|---|---|
| Só pessoas físicas | Cônjuges, irmãos, parceiros de plantio | Score único consolidado, combinando os dados dos membros |
| Pessoa física + jurídica | Mesmo produtor operando em CPF e CNPJ; sócios como membros | Score individual de cada um + metodologia de floor |
| Só pessoas jurídicas | Empresas irmãs, holding e subsidiárias | Score individual de cada uma + metodologia de floor |
Como o score é calculado quando o grupo é só de pessoas físicas
O score do grupo segue a mesma lógica do score individual: cada item da política de crédito contribui com uma nota, e a soma dessas notas forma o score final. A diferença é como o valor de cada item é definido quando há vários membros.
Para isso, cada item da política tem uma regra de agregação, pensada para o tipo de dado que ele representa:
- Itens de perfil ou restrição (histórico, restrições cadastrais): geralmente usam o pior resultado entre os membros, um problema em qualquer um deles representa risco para o grupo. Também podem usar melhor resultado, média ou mediana das notas, dependendo do item.
- Itens numéricos (receita, dívida, área): os valores brutos dos membros são combinados primeiro (por média, mediana ou soma) e só depois convertidos em nota.
- Itens ligados à operação em si (plantio na área da matriz de produção, crédito solicitado): o grupo responde com um único valor compartilhado, sem agregação entre membros.
Se faltar alguma informação necessária para calcular um item, o rating do grupo fica indefinido,da mesma forma que aconteceria em uma análise individual.
Disponibilidade de caixa
A disponibilidade de caixa do grupo soma as disponibilidades individuais de cada membro, com um cuidado importante: evitar contar o mesmo dinheiro duas vezes. Isso acontece, por exemplo, quando uma pessoa física recebe pró-labore ou distribuição de lucros de uma empresa que também faz parte do grupo, ou quando dois membros declaram receita da mesma operação compartilhada. Nesses casos, o valor duplicado é descontado do cálculo consolidado.
Como o score é calculado quando há pessoa jurídica no grupo
Quando o grupo tem pelo menos um CNPJ, a lógica muda. Aqui, não se calcula um score único combinando os dados de todos, cada membro tem seu rating individual calculado normalmente, e o rating do grupo é derivado a partir desses ratings.
O raciocínio segue uma prática consolidada no mercado financeiro: primeiro o rating individual de cada membro, depois a classificação do vínculo de cada um com o grupo, e só então o ajuste do rating do grupo.
Como funciona, na prática:
- Rating base: é o pior rating entre os membros classificados como Centrais ou Relevantes. Membros com vínculo Acessório ou Isolado não puxam o rating do grupo para baixo diretamente.
- Ajuste por risco crítico: se algum membro Acessório tiver rating D ou E, o rating base do grupo sofre uma penalidade de um degrau (chamado de notch). Por exemplo, de B para C. Essa penalidade é aplicada uma única vez, independentemente de quantos membros acessórios estejam nessa situação.
Exemplo:
Um grupo tem uma empresa (rating B, membro Central), o produtor à frente dela (rating A, membro Relevante) e uma filha do produtor que entra como avalista (rating D, membro Acessório).
- Rating base = pior entre Central e Relevante → B
- Há membro Acessório com rating D ou E? Sim → aplica-se a penalidade de um degrau
- Rating final do grupo: C
Sem esse ajuste proporcional, o grupo inteiro cairia para D — o rating da avalista, que não tem peso financeiro relevante na operação. O ajuste reconhece o risco dela sem distorcer a análise do grupo como um todo.
Duas regras adicionais importantes:
- Um membro com restrição bloqueante (rating E) bloqueia a proposta inteira, independentemente do seu vínculo com o grupo.
- Se um membro Acessório tiver rating melhor do que o rating base do grupo, isso pode aparecer como informação positiva na visão do grupo, mas não altera o rating final.
Nesses grupos, a disponibilidade de caixa consolidada não é calculada, mesmo que haja pessoas físicas entre os membros.
Limite sugerido
O limite de crédito sugerido também varia conforme a composição:
- Grupos só de pessoas físicas: calculado com base na necessidade de crédito indicada na matriz de produção, como já acontece hoje.
- Grupos com pessoa jurídica: o cálculo considera o perfil do membro central.
- Se o membro central for pessoa física, aplica-se a mesma lógica da matriz de produção.
- Se for pessoa jurídica, aplica-se um percentual sobre a receita líquida consolidada de todas as empresas do grupo.
- Havendo mais de um membro central, considera-se a necessidade de crédito pela matriz de produção.
Com essa abordagem, a análise deixa de enxergar cada CPF ou CNPJ isoladamente e passa a refletir a realidade das operações agro, em que produção, capital e risco costumam estar entrelaçados entre várias pessoas e empresas de um mesmo grupo.